terça-feira, 19 de fevereiro de 2019

Terri Lyne e a justiça de gênero no jazz



A baterista, compositora, cantora, produtora e professora Terri Lyne Carrington, 53 anos, em outubro passado, criou o Instituto de Jazz e Justiça de Gênero no Berklee College of Music, o a mais prestigiosa escola de jazz dos Estados Unidos. Sua intenção é garantir a igualdade de oportunidade para músicos de todos os gêneros, incluindo os que vão além do masculino e feminino, em uma atividade que ela afirma estar dominada por um patriarcado.

“Muita gente se preocupa com a igualdade de gênero em outros campos, mas não no jazz. Eu conheço um monte de músicos que votariam em uma mulher para presidente da república, antes de contratar uma para tocar em sua banda”, argumenta Carrington. “Existe uma enorme disparidade de oportunidades que nos incomoda e confunde”, prossegue. “As mulheres merecem ter suas músicas tocadas no rádio, serem comentadas na mídia e cobrar o mesmo que os homens”. 

Terri Lyne Carrington foi a primeira mulher a ganhar um prêmio Grammy para o Melhor Álbum de Jazz Instrumental, em 2013. Foi com seu disco Money Jungle: Provocative In Blue, em que grava temas de Duke Ellington, como Very Special, e composições próprias, como Grass Roots.

“Quando fui nominada, não percebi que estava sendo a primeira a receber a indicação”, conta Carrington. “Mais tarde, quando fiquei sabendo fiquei orgulhosa de ter sido eu essa pessoa. Mas não pude acreditar que era tão raro uma mulher ser indicada ao Grammy. E ainda mais raro, que chegue a ganhar o prêmio, quando existem tantos discos incríveis gravados por mulheres instrumentistas”.

Professora de bateria em Berklee, Terri Lyne Carrington relata que tem muito mais rapazes do que moças entre seus alunos. Ela comenta uma pesquisa realizada naquela universidade, em que os alunos foram instados a apontar suas artistas preferidas na área do jazz. A maioria citou cantoras conhecidas, como Ella Fitzgerald, Billie Holiday and Stacey Kent. Poucos se lembraram das instrumentistas do jazz.

“Isso me aborreceu, mas nos deu uma boa ideia do que estaremos enfrentando, com o Instituto de Jazz e Justiça de Gênero”, admitiu Carrington. “Faremos essa pergunta novamente, em alguns anos, e veremos se conseguimos alguma melhora na visibilidade de artistas do sexo feminino no jazz, fora da categoria cantora”.

Terri Lyne Carrington havia ganho um Grammy anterior exatamente o de Melhor Álbum de Jazz Vocal, em 2011, com The Mosaic Poject. Para esse disco, ela reuniu uma banda só de mulheres, com a participação de diversas cantoras, como Nona Hendryx, que está na faixa Transformation

No vídeo a seguir temos Terri Lyne Carrington com a banda de instrumentistas do Mosaic Project, que tem Geri Allen, no piano; Esperanza Spalding, no baixo; e Tineke Postma, no saxofone. A peça é Unconditional Love, de Geri Allen.

segunda-feira, 17 de dezembro de 2018

Roy Hargrove, trompetista, 1969-2018 R.I.P.


O trompetista Roy Hargrove foi um dos expoentes da geração de músicos que deu novo alento ao jazz tradicional no início dos anos 90. Falecido no mês passado, Hargrove foi um dos Young Lions, o termo usado para identificar os novos talentos do jazz, que apesar da pouca idade, se dedicaram ao revivaldo be bop dos anos 60. John Coltrane, Miles Davis e Thelonious Monk eram a inspiração dos “meninos” que, àquela época, contavam com pouco mais de vinte anos de idade.

Criado em Dallas, no Texas, Roy Hargove começou a estudar o trompete aos nove anos. Na verdade, ele queria mesmo era tocar o saxofone mas, como seu pai tinha conseguido comprar um trompete barato em uma loja de segunda mão, esse acabou sendo seu primeiro instrumento. Logo, ele se apaixonou pelo trompete e seu tornou um pequeno prodígio em sua interpretação.

Ainda no segundo grau, o talento de Roy Hargrove chamou a atenção do consagrado Winton Marsallis. Em turnê pelo Texas, Marsallis foi ministrar uma oficina na escola de música em que Hargrove estudava. Ouvindo o garoto tocar, o aconselhou a dedicar-se ao jazz. O jovem Roy ouviu o conselho e se matriculou, no ano seguinte, na Berklee College of Music, em Boston. 

Roy Hargrove cursou apenas o primeiro ano na Berklee. Ele contava que, nesse período matava as aulas para ir tocar em Nova York, que está a umas três horas e meia de Boston. O acabou se transferindo para a New School de Nova York, onde concluiu sua formação. E essa história divertia seus alunos, quando ele se tornou professor em Berklee.

Já em Nova York, Roy Hargrove gravou seu primeiro álbum como líder, Diamond in the Rough, em 1989, com apenas 20 anos. O repertório traz composições próprias e clássicos como Ruby My Dear, de Thelonious Monk, que ressaltam as qualidades do trompetista na interpretação das baladas.

Em sua carreira,  Roy Hargrove ganhou dois prêmios Grammy de melhor álbum de jazz. O primeiro em 1997, por Habana, gravado com músicos cubanos, como o pianista Chucho Valdez, que lhe dedicou a peça Mambo For Roy. O outro prêmio veio em 2002, pelo álbum Directions in Music, com o pianista Herbie Hancock e o saxofonista Michael Brecker. A parceria rendeu o tema Misstery.

Roy Hargrove morreu no último dia dois de novembro, em consequência de um ataque cardíaco. Ele estava com 49 anos e vinha sofrendo de uma grave insuficiência renal. Apesar da doença, o músico não deixava de se apresentar e excursionar pelo mundo. Esteve no Brasil em agosto de 2017, tocando no Sesc Pompeia, em São Paulo. No vídeo a seguir temos a apresentação de Roy Hargrove e seu Quinteto no Festival Jazz au Tête, na França, em outubro do ano passado.

terça-feira, 4 de dezembro de 2018

Eric Doplhy e sua flauta de encantar passarinhos


“Os passarinhos costumavam vir cantar na minha janela, quando eu estava em casa, exercitando com o saxofone. Eu parava com as escalas e ficava tocando junto com eles”, contava assim Eric Dolphy sua relação com a música e a natureza. Inspirado no canto dos pássaros, seus solos costumavam instigar a audiência, ao reproduzir seus sons, com os diversos instrumentos de sopro que tocava.

Nascido em Los Angeles, em 1928, Eric Dolphy ganhou seu primeiro clarinete aos seis anos de idade. Com apenas um mês de estudos já estava tocando na pequena banda de seu colégio. Em sua formação, estudou o oboé, o saxofone, o clarinete e a flauta. Concluiu seus estudos clássicos no Los Angeles City College, enquanto tocava jazz nos clubes da cidade. Mas Dolphy começou a ficar conhecido em 1958, quando se juntou ao quinteto de Chico Hamilton.

Em 1959, Eric Dolphy mudou-se para Nova York e passou a integrar o grupo do baixista Charles Mingus. O músico se apresentou e gravou com alguns dos maiores nomes do jazz naquele momento, além de desenvolver sua carreira solo no selo Prestige. Dolphy integrou a banda de Ornette Coleman no álbum Free Jazz, de 1961, o que acabou identificando seu nome ao movimento.

Eric Dolphy era um músico de vanguarda, mas não pertencia à escola do free jazz. Ele estava mais próximo das experiências musicais de John Coltrane. Os dois conversavam muito e se influenciavam mutuamente. Os críticos da época creditavam à influência de Dolphy a nova sonoridade apresentada por Coltrane, em seus shows no clube Village Vanguard.

O álbum original John Coltrane Live at Village Vanguardtraz apenas umas poucas participações de Eric Dolphy, nesses concertos, como na faixa Spiritual, em que ele sola seu clarone, o clarinete baixo da orquestra sinfônica, que Dolphy levou para jazz.

Já o álbum, The Complete Copenhagen Concert 1961, traz uma versão a versão de Coltrane para My Favorite Things, em que se destaca o solo da flauta de Eric Dolphy. Impressionado com a história dos pássaros na janela, John Coltrane pediu a Dolphy que recuperasse esses diálogos em seu solo. 

Eric Dolphy morreu em 1964, no auge de sua carreira, aos 36 anos. Ele passou mal durante uma turnê em Berlim e foi levado para um hospital. Negro, músico de jazz, os médicos inferiram que Dolphy estaria tendo uma overdose de drogas. O músico não se drogava. Era diabético e não sabia. Havia tido uma overdose de mel e, provavelmente, lhe injetaram mais glicose, causando-lhe um coma fatal.

Eric Dolphy havia gravado naquele ano o álbum Out to Lunch, considerado sua obra prima. Na turnê pela Europa, junto com Charles Mingus, ele tinha revelado ao baixista que ficaria por lá, morando em Paris. Mingus compôs, em sua homenagem, o tema So Long, Eric, que tocam juntos, no vídeo a seguir. Eles não imaginavam que se despediam para sempre.


segunda-feira, 8 de outubro de 2018

O jazz mais brasileiro do internacional Airto Moreira

Airto Moreira - Foto: Victor Kobayashi/Sesc - Divulgação 

Airto Moreira, o fantástico percussionista brasileiro, radicado nos Estados Unidos, é a grande atração desta sexta feira (05/10), no festival Ilhabela in Jazz 2018. O evento vem se destacando como uma das mais importantes iniciativas do gênero, no país. Na semana passada a estrela foi o trompetista americano Ambrose Akinmusire, que surpreendeu a plateia com todo seu virtuosismo.

No concerto desta noite, Airto Moreira apresentará o repertório de seu novo álbum Aluê (Sesc), o primeiro gravado no Brasil, desde que deixou o país, em 1967. Com ele estarão os músicos José Neto, na guitarra, Sizão Machado, no baixo, Fabio Leandro, no piano, Vítor Alcântara, nos sopros e Carlos Ezequiel, na bateria. O grupo acaba de chegar de uma série de apresentações em dez cidades da Europa.

Airto Moreira é hoje um dos mais respeitados músicos brasileiros na cena jazz internacional. Mas, antes de ir para os Estados Unidos, ele já fazia história no jazz brasileiro. No início dos anos 60, foi o baterista do Sambalanço Trio, com Cesar Camargo Mariano e Humberto Clayber. Depois, montou o Sambrasa Trio, com Clayber, no baixo; e Hermeto Pascoal, ao piano. Foram grupos pioneiros na linguagem do samba jazz no Brasil.

Airto e Hermeto participaram ainda do legendário Quarteto Novo, que misturou o jazz com os ritmos nordestinos. Eles se reuniram com Heraldo do Monte e Theo de Barros para acompanharem o compositor Geraldo Vandré. É Airto Moreira que vemos tocando a queixada de burro em Disparada, atrás de Jair Rodrigues, no Festival da Record, de 1966.

Airto Moreira também fez parte da história no jazz nos Estados Unidos. Ele foi o percussionista da turnê do álbum Bitches Brew, que marcou a fase elétrica de Miles Davis. Airto tocou com o grupo no histórico festival da Ilha de Wight, diante de 600 mil pessoas, uma audiência recorde do jazz em todos os tempos. 

Tocar com Miles Davis significava estar no patamar mais elevado no mundo do jazz. Airto Moreira estava junto com músicos como Wayne Shorter, Dave Holland, Jack DeJohnette, John McLaughlin, Joe Zawinul, Chick Corea, e Keith Jarrett, para citar alguns. Com Shorter e Zawinul, Airto criou o também histórico grupo de jazz fusion The Weather Report. 

Em seu novo álbum, Airto Moreira retoma sua identidade mais profunda com o jazz de raízes brasileiras e promove um reencontro com temas que marcaram sua carreira. Aluê, a peça que dá nome ao disco, é uma parceria dos anos 70 com sua mulher, a cantora Flora Purim. I'm fine, how are you, é a música que dá título a seu álbum de 1977. E Lua Floragravada originalmente em 1989, no álbum The Sun Is Out

No vídeo a seguir temos o novo arranjo de Airto Moreira para a peça Misturada, composição dele e de Geraldo Vandré, que fez parte do álbum Quarteto Novo(1967), o único gravado pelo grupo.