segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Ahmad Jamal, lenda viva do jazz


Aos 89 anos, o pianista Ahmad Jamal é a própria história viva do jazz. Ele sempre lembra do concerto de 1952, no Carnegie Hall, que comemorava os 25 anos da orquestra de Duke Elling-
ton. Jamal estava no palco junto com Ellington, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Stan Getz e Billie Holiday. Único remanescente desse grupo, ele se diz um afortunado por seguir vivo e traba-lhando. Ahamad Jamal acaba de lançar o álbum Ballades (Jazz Village), o primeiro piano solo de sua carreira.
 
Nascido Frederick Russell Jones, de uma família batista de Pittsburgh, na Pensilvania, ele adotou o nome Ahmad Jamal nos anos 50, quando se converteu ao Islã. Pittsburgh é uma parte importante de sua identidade musical. Ali estão suas raízes e principais influências, tendo convivido com músicos como Earl Hines, Billy Strayhorn, Mary Lou Williams, e Erroll Garner. Aos 14 anos estava em jam sessions com o pianista Art Tatum ou com o saxofonista Ben Webster.

Ahmad Jamal conheceu o sucesso em 1958 quando tocava com seu trio no Chicago's Pershing Hotel. Por aquela época ele definiu seu fraseado minimalista, em contraste com o batucar frenético das teclas, que marcava o jazz da época. Precursor do gênero que ficou conhecido como cool jazz, Jamal foi uma das influências confessas de Miles Davis na definição do estilo. Miles foi um dos muitos músicos que passaram pelo lounge do hotel para escutar o trio de Ahmad Jamal.

Ahmad Jamal at the Pershing: But Not for Me, o álbum gravado ao vivo naquele ano esteve, por mais de dois anos na lista dos dez mais vendidos na época. Feito raro, para um disco de jazz, em qualquer período. Composto basicamente por standards, como But not for me e No greater love, o disco ficou mesmo conhecido pela versão do pianista para o tema latino Ponciana, que acompanhou Ahmad Jamal durante toda sua carreira.

As músicas que compõem o novo álbum Ballades, foram gravadas nos intervalos das sessões de seu disco anterior Marseille(2017). Ahmad Jamal diz que o álbum é uma carta de amor, de inspiração francesa a seu passado. Ele conta que, sempre adorou interpretar baladas. “Elas são difíceis de tocar, tomam, verdadeiramente, anos de minha vida, na tentativa de conseguir uma leitura apropriada para cada uma delas”, explica Jamal.

No repertório do disco Ballades estão três composições suas, entre elas a novíssima Because I Love Youstandards do jazz, como What’s New, consagrado por Billie Holiday; e uma nova leitura de seu clássico Ponciana,  piano solo. A sofisticação e a qualidade de Ahmad Jamal, preservada e ampliada ainda mais, ao longo de seus 89 anos.

No vídeo a seguir temos uma apresentação de Ahmad Jamal no Palais des Congrès de Paris, em 2017, interpretando também uma balada, Autumn Leaves.


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Arthur Maia, o saudoso gigante do baixo



Aos quatro anos o garoto Arthur já batucava nas panelas da casa, acompanhando as músicas que ouvia no rádio. Aos cinco, ganhou sua primeira bateria e começou a ter aulas do instrumento. Com oito anos já tinha uma banda e tocava nas festas e eventos, no Rio de Janeiro. Mas aos 14 anos, influenciado pelo tio Luizão Maia, o jovem Arthur Maia trocou a bateria pelo baixo e se tornou um dos maiores mestres desse instrumento no Brasil.

O baixista Luiz Maia era já uma lenda na cena musical brasileira. Foi ele a primeira influência do jovem Arthur Maia. E foi, também, quem lhe indicou para o primeiro emprego, na banda de Ivan Lins, em 1986.  Com pouco mais de 15 anos, logo Arthurzinho já estava tocando com Luiz Melodia, Marcio Montarroyos, Jorge Benjor, músicos que eram seus ídolos.

Outra influência fundamental para o Arthur Maia foi o baixista Jaco Pastorius, que ele o viu tocando com o Weather Report no Rio, em 1980. De Pastorius, incorporou o baixo elétrico fretless, que não tem trastes no braço. A partir daí desenvolveu sua própria linguagem musical, levando para o baixo elétrico as técnicas adquiridas com o estudo do baixo acústico.  

Arthur Maia, ainda muito jovem, se tornou um baixista dos mais requisitados pelos grandes artistas brasileiros como Djavan, Ney Matogrosso, Gal Costa, Caetano Veloso, Marisa Monte, Roberto Carlos, Dominguinhos entre tantos outros. Tocar com diferentes artistas de todos os gêneros musicais, lhe rendeu uma formação ampla e influências ecléticas. 

Em 1985, Maia passou a integrar o mais importante grupo de jazz brasileiro, o Cama de Gato, junto com Paschoal Meirelles, Mauro Senise e Rique Pantoja. Na mesma época, ele tocava rock, na banda de Lulu Santos; samba, com Martinho da Vila; e MPB no grupo de Ivan Lins.

Em suas composições, Arthur Maia incorpora todas essas influências, fazendo uma fusão do jazz com o samba, o funk e até o reggae. Integrante durante 15 anos da banda de Gilberto Gil, Maia relatava como havia sido marcante ter gravado na Jamaica, o álbum Kaya N'Gan Daya (2002), o tributo de Gil a Bob Marley. 

Em sua carreira solo, Arthur Maia estreou com o álbum Maia, em 1991, que lhe rendeu o Prêmio Sharp Instrumental. Seu último trabalho em disco foi o álbum O Tempo e a Música, editado em 2011, que soa, hoje, como uma espécie de testamento. Nele, se destacam as composições Frevo do Compadre e To Nico. E, também, o arranjo de Maia para o choro Brejeiro, de Ernesto Nazareth, em que o baixo sola, conduzindo a melodia.

Arthur Maia faleceu prematuramente em dezembro de 2018, aos 51 anos. Em julho deste ano o selo Biscoito Fino lançou o DVD Arthur Maia Ao Vivo, gravado em 2015, em Niterói. É deste trabalho o vídeo a seguir, com o tema Arthur e o Gigante, composta para Arthur Maia por Willian Magalhães, da Banda Black Rio. 


Veja, também, Arthur Maia e Dominguinhos nesta sensacional versão de Lamento Sertanejo

O saxofonista Joshua Redman revive Velhos e Novos Sonhos




O quarteto Old and New Dreams foi um grupo de jazz singular, formado no final dos anos 70 por ex-membros da banda do saxofonista Ornette Coleman. Eles recuperaram o antigo formato do revolucionário quarteto de Coleman, com Charlie Haden, no baixo; Ed Blackwell, na bateria; Don Cherry, no trompete; e o saxofonista Dewey Redman, no lugar de Ornette Coleman. O grupo havia ficado órfão, quando Coleman resolveu montar uma nova banda, toda elétrica.

O formato do quarteto sem piano - em que apenas o baixo e a bateria sustentam a sessão rítmica, para os solos do trompete e do saxofone - já é, por si só, inusitado. O mais famoso grupo desse tipo foi o que reuniu Chet Baker e Gerry Mulligan, nos anos 50. Ornette Coleman repetiu essa formação no início dos anos 60, com seu sax alto fazendo contraponto, e se complementando, com o poket trumpet de Don Cherry. Foi o auge do free jazz, o jazz de vanguarda, que levou o improviso a seus extremos.

Com Dewey Redman no saxofone, o Old and New Dreams, ainda que seguindo o estilo de improvisação do free jazz, voltou-se para uma abordagem mais leve que a do grupo de Coleman. O quarteto gravou seu primeiro álbum em 1976, para o selo italiano Black Saint. No repertório, temas do antigo quarteto de Ornette Coleman e novas composições do grupo, como a que dá nome ao disco, escrita por Redman, Old and New Dreams.

O quarteto teve duração relativamente curta, com reuniões esporádicas, uma vez que seus quatro integrantes eram líderes em suas próprias bandas. Eles gravaram apenas quatro discos, no período de 1976 e 1987, todos na Europa e não nos Estados Unidos. 

O quarteto Old And New Dreams com Charlie Haden, no baixo; Don Cherry, no trompete; Ed Blackwell, na bateria;  e Dewey Redman, no saxofone

Em 1979 o selo de jazz alemão ECM lançou outro álbum com o mesmo nome do grupo, Old and New Dreams e em 1980 editou Playing, gravado ao vivo. O último álbum do quarteto foi A Tribute to Blackwell, lançado pelo selo italiano Black Saint, em 1987.

Em 2018, o filho de Dewey Redman, o também saxofonista Joshua Redman, inspirado no lendário grupo de seu pai o formou o quarteto Still Dreaming. Com ele estão o trompetista Ron Miles, seguidor de Don Cherry, até no pocket trumpet; o baixista Scott Colley, que foi aluno de Charlie Haden; e o baterista Brian Blade, influenciado diretamente pela batida de Ed Blackwell.

Joshua Redman não faz um cover da banda de seu pai, ele recria a atmosfera do grupo, na perfeita integração de seus duetos com Ron Miles, como fazia Dewey com Don Cherry. A maioria das músicas que integram o álbum Still Dreaming (Nonesuch -2018) são composições originais de Joshua, como Blues For Charlie, sua homenagem ao baixista Charlie Haden. Do Old and New Dreams, o novo quarteto gravou Playing, composição de Charlie Haden e Comme Il Faut, de Ornette Coleman.

No vídeo a seguir temos a Joshua Redman e o quarteto Still Dreaming com o tema Unanimity, durante a apresentação no Festival Jazz in Marciac, na França, em 2017.


segunda-feira, 15 de julho de 2019

Jaco Pastorius, “o melhor baixista do mundo”



“Olá, eu sou John Francis Pastorius III, o maior baixista do mundo”, se  apresentou Jaco Pastorius ao tecladista do Weather Report, Joe Zawinul, depois de assistir a banda, em Miami, em 1974. Zawinul riu da abordagem e pediu que lhe deixasse alguma gravação de sua performance. Um ano depois, Zawinul chamou o músico para substituir o antigo baixista, que deixava a banda. O baixo de Jaco Pastorius passou a ser  a marca definitiva do som do Weather Report.

Nascido na Pensilvânia em Fort Lauderdale, na Florida, Jaco Pastorius era já uma lenda local em sua terra. Ele havia começado tocando em bandas de R&B e de rock and roll, quando adolescente. Mas logo passou ao jazz, em parceria com o guitarrista Pat Matheny, outro jovem músico, em início de carreira. Eles gravaram juntos o álbum Jaco(1974) que viria a ser a primeira gravação de ambos. O disco já marcava o estilo inovador de Pastorius.

Jaco Pastorius foi contratado, em 1975, pela Epic Records, que buscava novos talentos do jazz. O primeiro disco que ele gravou para o selo é considerado hoje um dos melhores álbuns de jazz, tendo o baixo na linha de frente. No álbum Jaco Pastorius (1976), o músico estabelecia uma nova linguagem para o baixo elétrico, que soava quase como acústico.

O disco solo de Pastorius foi lançado no mesmo ano que o álbum  Black Market(1976), que marca o ínicio de sua colaboração com o Weather Report. Ele participa do repertório com a peça Barbary Coast. No álbum seguinte da banda Heavy Weather(1977), Jaco Pastorius já aparece como co-produtor e co-líder, junto com Joe Zawinul e Wayne Shorter. Sua composição Teen Town se torna um dos clássicos do Weather Report.

Jaco Pastorius ficou no grupo até 1981 e deixou o Weather Report para montar seu próprio grupo, o Word of Mouth. A nova banda tinha formatos variáveis, que iam desde o octeto até uma big band de 21 instrumentos. A Word of Mouth excursionou pelo mundo até 1984, quando o comportamento instável de Pastorius começou a passar-lhe fatura. 

Diagnosticado com transtorno bipolar, Jaco Pastorius tinha crises maníaco depressivas, agravadas pelo abuso de álcool e drogas. Morreu, em 1987, aos 35 anos, depois de levar uma surra do leão de chácara de uma boate. Antes, naquele dia, ele havia sido expulso do palco de um show de Santana, em que havia entrado de penetra. Logo, foi para essa boate, onde foi surrado, depois de discutir com o porteiro. O legado de Pastorius é destacado no documentário Jaco (2015), produzido por Roberto Trujillo, baixista do grupo Metallica.

No vídeo a seguir temos uma apresentação de Jaco Pastorius na Bélgica, em 1985, com Jon Davis ao piano; Paco Sery, na bateria; e Azar Lawrence, no saxofone. Eles tocam o tema Dolphin Dance, clássico de Herbie Hancock.