terça-feira, 11 de fevereiro de 2020

Cedar Walton, o compositor de standards do Jazz Messengers



O pianista Cedar Walton (1934 – 2013) ficou conhecido no mundo do jazz como um dos integrantes da primeira formação da importante Jazz Messengers, a banda dirigida pelo baterista Art Blekey. Walton foi o autor de composições e arranjos que marcaram a carreira do Jazz Messengers, no momento mais brilhante da banda, que tinha ainda Freddie Hubard, no trompete e Wayne Shorter, no saxofone.

“Eu me sinto extremamente afortunado de ter vivido essa época do Jazz Messengers”, costumava contar Cedar Walton. “Estávamos ali, tocando e tínhamos na plateia Thelonious Monk, Art Blakey, Dizzy Gillespie e Erroll Garner. Até Miles Davis aparecia, de vez em quando para ouvir os Messengers. Músicos que eu ouvia nos discos.”

Nascido em Dallas, no Texas, Cedar Walton é filho da pianista clássica Ruth Walton, que foi sua primeira professora de música. Mas foi com ela, também, que o garoto teve seus contatos iniciais com o jazz. A mãe o levava aos concertos dos músicos que passavam pela Dallas natal. Ele pôde ver e ouvir Nat King Cole, Bud Powell, Thelonious Monk e Art Tatum, que Walton cita como suas maiores influências no piano.

Cedar Walton estudou composição e arranjo na Universidade de Denver, no Colorado. A princípio, sua ideia era estabelecer-se como professor de música no sistema público local. Mas o jazz o desviou desse destina, ao proporcionar-lhe tocar com John Coltrane, Charlie Parker e Richie Powell, em jam sessions, depois das apresentações desses músicos nos clubes de jazz, em Denver. 

O músico decidiu que teria de ira para Nova York, pois era lá que o jazz estava acontecendo. Cedar Walton deixou a universidade e mudou-se para a capital cultural dos Estados Unidos. Entre 1958 e 1961, ele tocou com Kenny Dorham, J.J. Johnson, com Art Farmer's Jazztet, entre outros, até entrar para o Art Blakey’s Jazz Messengers. 

Walton se havia especializado em tocar standards do jazz, nos grupos que em passou. Foi o pianista Thelonious Monk quem o incentivou a compor e apresentar suas peças. Falando entre os dentes, Monk lhe disse: “Deixa essa coisa de tocar standards, e toque as suas próprias ‘porcarias’” lembrava Walton. Essa conversa o levou a propor aos companheiros do Messengers a gravação de sua composição Mosaic, que se tornou um standarddo jazz.

Cedar Walton emplacou várias outras composições suas, junto com o Jazz Messengers, que passaram a fazer parte do repertório do jazz. Entre elas, UgetsuFirm Roots e Cedar’s Blues. No vídeo a seguir temos o trio de Cedar Walton, com Pierre Michelot, no baixo e Billy Higgins, na bateria, na composição mais conhecida de Walton Bolívia

A peça foi gravada pela primeira vez em 1975, pelo  grupo de Walton àquela época, o Eastern RebellionEla vale ser lembrada neste momento em que aquele país vive outra rebelião, depois do golpe que derrubou o governo de Evo Morales.

O jazz colorido da pianista japonesa Hiromi



O novo álbum da pianista Hiromi Uehara Spectrum (Telarc) celebra sua maturidade pessoal e musical. Hiromi criou uma tradição para si, gravando um disco de piano solo a cada final de década de sua idade. Gravou o primeiro aos 29, este aos 39 e pretende gravar o próximo quando cumprir os 49. “O som de um pianista se modifica com a idade e com a experiência de vida”, explica Hiromi. “Eu criei esses marcos para poder ver, desde fora, o quanto mudei e cresci, nesses anos”.

Nascida em Hamamatsu, no Japão, Hiromi começou a estudar piano clássico aos seis anos de idade. Sua primeira professora, Noriko Hikida, foi, também, quem a apresentou ao jazz. Com um método próprio e original, Hikida orientava sua aluna associando os sons a cores, estabelecendo uma relação de mais fácil compreensão para a criança.

“Quando ela queria que eu tocasse com um certo tipo de dinâmica, ela não explicava isso em termos técnicos”, conta a pianista. “Se era uma peça cheia de paixão, ela dizia: ‘Toque em vermelho’. Já se era alguma coisa suave, ela dizia: ‘Toque em azul’. Dessa maneira, eu podia, realmente, tocar com o meu coração, não só com o ouvido”, conta Hiromi.

Os ensinamentos da primeira professora acompanham a pianista por toda sua vida. Em 1999, com 20 anos, Hiromi mudou-se para os Estados Unidos, para estudar no Berklee College of Music, em Boston. A universidade lhe proporcionou ampliar ainda mais seu horizonte musical. Lá ela teve contato estreito e simultâneo com pessoas que se dedicavam ao jazz, ao clássico e até ao rock. E Hiromi levou todas essas influências para sua música, que vai do jazz fusion ao rock progressivo, passando pelo clássico.

Desde seu primeiro álbum Another Mind(2003), Hiromi vem conquistando um público cada vez mais amplo, com sua abordagem original do jazz. True and Lies é dos temas de seu disco de estreia. Nesse disco ela iniciou a colaboração com o baixista Anthony Jackson, com quem mais tarde formou The Trio Project, junto com o baterista Simon Phillips. Eles estão no álbum Alive, de 2014.

Do novo álbum solo de Hiromi, destacamos os temas Once in a Blue Moon e sua homenagem a Gershwin com a medley Rhapsody in Various Shades of Blue. Outra peça muito especial do disco é Mr.C.C. que, em clima de trilha sonora de cinema mudo, ela dedica a Charlie Chaplin. Tudo muito colorido, como a própria capa do álbum.

“Para um pianista, fazer um álbum solo é como você estar nu diante da plateia”, reflexiona Hiromi. “Não há onde se esconder, não tem outro instrumento para lhe dar apoio, é realmente muito desafiador. Mas ao mesmo tempo” – diz ela – “essa é a melhor maneira de você aproveitar totalmente todas as possibilidades de seu instrumento”.

No vídeo a seguir podemos desfrutar de Hiromi Uehara - ou simplesmente Hiromi, como ela se apresenta - enfrentando, sozinha, esse desafio, diante de seu piano, tocando a faixa título do novo álbum, Spectrum.


domingo, 19 de janeiro de 2020

Andrea Motis, a trompetista catalã do jazz brasileiro



A trompetista, saxofonista e cantora catalã Andrea Motis, 24 anos, é a mais nova revelação no jazz. Apesar da pouca idade, ela é uma veterana nos palcos de sua Barcelona natal. Começou a estudar o trompete com sete anos de idade. Aos 15, já estava gravando e participando de concertos, junto com seu mentor, o baixista Joan Chamorro e a Sant Andreu Jazz Band, com os alunos da Escola de Música de Sant Andreu, um bairro afastado de Barcelona.

Andrea Motis conta, divertida, sua primeira experiência como star, que se deu por aquela época. Ela era uma das atrações do importante Festival de Jazz de Barcelona. Seu concerto estava programado para a boate Luz de Gaz, uma tradicional casa noturna da cidade, só que proibida para menores de 18 anos. Ela, então com 15, não ia poder tocar em uma boate, pois nem poderia entrar. A apresentação teve de ser transferida para o Teatro Coliseu, onde menores eram aceitos, acompanhados pelos pais.

O envolvimento precoce com a música, fez com que estudo e profissão se desenvolvessem naturalmente na vida de Andrea Motis. Enquanto cursava o curso profissionalizante de música, ela seguia gravando e se apresentando com Joan Chamorro. Participar sempre de jams sessions e oficinas musicais com os importantes músicos de jazz, que passavam por Barcelona, como o maestro Quincy Jones, o cellista Yo-Yo Ma; o saxofonista Scott Hamilton; e o trombonista Wycliffe Gordon, entre outros.

Como cantora, a voz suave de Andrea Motis remete à jovem americana Norah Jones. Como instrumentista, sua referência é Chet Baker, o trompetista de solos melodiosos e o cantor de voz aveludada. E a música brasileira é uma paixão, sempre presente nos discos e shows de Andrea. Seus conhecimentos e repertório vão além dos clássicos de Tom Jobim, conhecidos em todo o mundo, como Chega de Saudade, que ela gravou no álbum Emocional Dance (Impulse! 2017)

Emocional Dance foi o primeiro álbum de Andrea Motis para o selo americano Impulse!, uma referência no mundo do jazz. Na Impulse! gravava simplesmente o grande John Coltrane. Acompanhada dos veteranos Ignasi Terraza, no piano; Joan Chamorro, no baixo; Josep Traver, na guitarra; e Esteve Pi, na bateria, ela explora um repertório variado, com composições próprias e clássicos do jazz como You'd Be So Nice To Come Home To, de Cole Porter.

O segundo álbum de Andrea Motis para a gravadora americana foi lançado neste ano, pelo selo Verve. Com título é em português, Do outro lado do Azul, é seu trabalho mais ousado e mais brasileiro. Ela abre com o clássico, Antonico, que tem um belo vídeo clip rodado nas ruas de Barcelona. Mas vai muito além, com axé, como em Filho de Oxum; com sambas autênticos, como Saudades da Guanabara; e chega na vanguarda paulista de Luiz Tatit, com Baião de Quatro Toques. Uma artista que já chega pronta ao mercado internacional.

No vídeo a seguir temos Andrea Motis, com seu Quinteto, interpretando Dança da Solidão, de Paulinho da Viola. É um peça que também está em seu álbum Do outro lado do Azul.


segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Ahmad Jamal, lenda viva do jazz


Aos 89 anos, o pianista Ahmad Jamal é a própria história viva do jazz. Ele sempre lembra do concerto de 1952, no Carnegie Hall, que comemorava os 25 anos da orquestra de Duke Elling-
ton. Jamal estava no palco junto com Ellington, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Stan Getz e Billie Holiday. Único remanescente desse grupo, ele se diz um afortunado por seguir vivo e traba-lhando. Ahamad Jamal acaba de lançar o álbum Ballades (Jazz Village), o primeiro piano solo de sua carreira.
 
Nascido Frederick Russell Jones, de uma família batista de Pittsburgh, na Pensilvania, ele adotou o nome Ahmad Jamal nos anos 50, quando se converteu ao Islã. Pittsburgh é uma parte importante de sua identidade musical. Ali estão suas raízes e principais influências, tendo convivido com músicos como Earl Hines, Billy Strayhorn, Mary Lou Williams, e Erroll Garner. Aos 14 anos estava em jam sessions com o pianista Art Tatum ou com o saxofonista Ben Webster.

Ahmad Jamal conheceu o sucesso em 1958 quando tocava com seu trio no Chicago's Pershing Hotel. Por aquela época ele definiu seu fraseado minimalista, em contraste com o batucar frenético das teclas, que marcava o jazz da época. Precursor do gênero que ficou conhecido como cool jazz, Jamal foi uma das influências confessas de Miles Davis na definição do estilo. Miles foi um dos muitos músicos que passaram pelo lounge do hotel para escutar o trio de Ahmad Jamal.

Ahmad Jamal at the Pershing: But Not for Me, o álbum gravado ao vivo naquele ano esteve, por mais de dois anos na lista dos dez mais vendidos na época. Feito raro, para um disco de jazz, em qualquer período. Composto basicamente por standards, como But not for me e No greater love, o disco ficou mesmo conhecido pela versão do pianista para o tema latino Ponciana, que acompanhou Ahmad Jamal durante toda sua carreira.

As músicas que compõem o novo álbum Ballades, foram gravadas nos intervalos das sessões de seu disco anterior Marseille(2017). Ahmad Jamal diz que o álbum é uma carta de amor, de inspiração francesa a seu passado. Ele conta que, sempre adorou interpretar baladas. “Elas são difíceis de tocar, tomam, verdadeiramente, anos de minha vida, na tentativa de conseguir uma leitura apropriada para cada uma delas”, explica Jamal.

No repertório do disco Ballades estão três composições suas, entre elas a novíssima Because I Love Youstandards do jazz, como What’s New, consagrado por Billie Holiday; e uma nova leitura de seu clássico Ponciana,  piano solo. A sofisticação e a qualidade de Ahmad Jamal, preservada e ampliada ainda mais, ao longo de seus 89 anos.

No vídeo a seguir temos uma apresentação de Ahmad Jamal no Palais des Congrès de Paris, em 2017, interpretando também uma balada, Autumn Leaves.


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Arthur Maia, o saudoso gigante do baixo



Aos quatro anos o garoto Arthur já batucava nas panelas da casa, acompanhando as músicas que ouvia no rádio. Aos cinco, ganhou sua primeira bateria e começou a ter aulas do instrumento. Com oito anos já tinha uma banda e tocava nas festas e eventos, no Rio de Janeiro. Mas aos 14 anos, influenciado pelo tio Luizão Maia, o jovem Arthur Maia trocou a bateria pelo baixo e se tornou um dos maiores mestres desse instrumento no Brasil.

O baixista Luiz Maia era já uma lenda na cena musical brasileira. Foi ele a primeira influência do jovem Arthur Maia. E foi, também, quem lhe indicou para o primeiro emprego, na banda de Ivan Lins, em 1986.  Com pouco mais de 15 anos, logo Arthurzinho já estava tocando com Luiz Melodia, Marcio Montarroyos, Jorge Benjor, músicos que eram seus ídolos.

Outra influência fundamental para o Arthur Maia foi o baixista Jaco Pastorius, que ele o viu tocando com o Weather Report no Rio, em 1980. De Pastorius, incorporou o baixo elétrico fretless, que não tem trastes no braço. A partir daí desenvolveu sua própria linguagem musical, levando para o baixo elétrico as técnicas adquiridas com o estudo do baixo acústico.  

Arthur Maia, ainda muito jovem, se tornou um baixista dos mais requisitados pelos grandes artistas brasileiros como Djavan, Ney Matogrosso, Gal Costa, Caetano Veloso, Marisa Monte, Roberto Carlos, Dominguinhos entre tantos outros. Tocar com diferentes artistas de todos os gêneros musicais, lhe rendeu uma formação ampla e influências ecléticas. 

Em 1985, Maia passou a integrar o mais importante grupo de jazz brasileiro, o Cama de Gato, junto com Paschoal Meirelles, Mauro Senise e Rique Pantoja. Na mesma época, ele tocava rock, na banda de Lulu Santos; samba, com Martinho da Vila; e MPB no grupo de Ivan Lins.

Em suas composições, Arthur Maia incorpora todas essas influências, fazendo uma fusão do jazz com o samba, o funk e até o reggae. Integrante durante 15 anos da banda de Gilberto Gil, Maia relatava como havia sido marcante ter gravado na Jamaica, o álbum Kaya N'Gan Daya (2002), o tributo de Gil a Bob Marley. 

Em sua carreira solo, Arthur Maia estreou com o álbum Maia, em 1991, que lhe rendeu o Prêmio Sharp Instrumental. Seu último trabalho em disco foi o álbum O Tempo e a Música, editado em 2011, que soa, hoje, como uma espécie de testamento. Nele, se destacam as composições Frevo do Compadre e To Nico. E, também, o arranjo de Maia para o choro Brejeiro, de Ernesto Nazareth, em que o baixo sola, conduzindo a melodia.

Arthur Maia faleceu prematuramente em dezembro de 2018, aos 51 anos. Em julho deste ano o selo Biscoito Fino lançou o DVD Arthur Maia Ao Vivo, gravado em 2015, em Niterói. É deste trabalho o vídeo a seguir, com o tema Arthur e o Gigante, composta para Arthur Maia por Willian Magalhães, da Banda Black Rio. 


Veja, também, Arthur Maia e Dominguinhos nesta sensacional versão de Lamento Sertanejo