domingo, 19 de janeiro de 2020

Andrea Motis, a trompetista catalã do jazz brasileiro



A trompetista, saxofonista e cantora catalã Andrea Motis, 24 anos, é a mais nova revelação no jazz. Apesar da pouca idade, ela é uma veterana nos palcos de sua Barcelona natal. Começou a estudar o trompete com sete anos de idade. Aos 15, já estava gravando e participando de concertos, junto com seu mentor, o baixista Joan Chamorro e a Sant Andreu Jazz Band, com os alunos da Escola de Música de Sant Andreu, um bairro afastado de Barcelona.

Andrea Motis conta, divertida, sua primeira experiência como star, que se deu por aquela época. Ela era uma das atrações do importante Festival de Jazz de Barcelona. Seu concerto estava programado para a boate Luz de Gaz, uma tradicional casa noturna da cidade, só que proibida para menores de 18 anos. Ela, então com 15, não ia poder tocar em uma boate, pois nem poderia entrar. A apresentação teve de ser transferida para o Teatro Coliseu, onde menores eram aceitos, acompanhados pelos pais.

O envolvimento precoce com a música, fez com que estudo e profissão se desenvolvessem naturalmente na vida de Andrea Motis. Enquanto cursava o curso profissionalizante de música, ela seguia gravando e se apresentando com Joan Chamorro. Participar sempre de jams sessions e oficinas musicais com os importantes músicos de jazz, que passavam por Barcelona, como o maestro Quincy Jones, o cellista Yo-Yo Ma; o saxofonista Scott Hamilton; e o trombonista Wycliffe Gordon, entre outros.

Como cantora, a voz suave de Andrea Motis remete à jovem americana Norah Jones. Como instrumentista, sua referência é Chet Baker, o trompetista de solos melodiosos e o cantor de voz aveludada. E a música brasileira é uma paixão, sempre presente nos discos e shows de Andrea. Seus conhecimentos e repertório vão além dos clássicos de Tom Jobim, conhecidos em todo o mundo, como Chega de Saudade, que ela gravou no álbum Emocional Dance (Impulse! 2017)

Emocional Dance foi o primeiro álbum de Andrea Motis para o selo americano Impulse!, uma referência no mundo do jazz. Na Impulse! gravava simplesmente o grande John Coltrane. Acompanhada dos veteranos Ignasi Terraza, no piano; Joan Chamorro, no baixo; Josep Traver, na guitarra; e Esteve Pi, na bateria, ela explora um repertório variado, com composições próprias e clássicos do jazz como You'd Be So Nice To Come Home To, de Cole Porter.

O segundo álbum de Andrea Motis para a gravadora americana foi lançado neste ano, pelo selo Verve. Com título é em português, Do outro lado do Azul, é seu trabalho mais ousado e mais brasileiro. Ela abre com o clássico, Antonico, que tem um belo vídeo clip rodado nas ruas de Barcelona. Mas vai muito além, com axé, como em Filho de Oxum; com sambas autênticos, como Saudades da Guanabara; e chega na vanguarda paulista de Luiz Tatit, com Baião de Quatro Toques. Uma artista que já chega pronta ao mercado internacional.

No vídeo a seguir temos Andrea Motis, com seu Quinteto, interpretando Dança da Solidão, de Paulinho da Viola. É um peça que também está em seu álbum Do outro lado do Azul.


segunda-feira, 25 de novembro de 2019

Ahmad Jamal, lenda viva do jazz


Aos 89 anos, o pianista Ahmad Jamal é a própria história viva do jazz. Ele sempre lembra do concerto de 1952, no Carnegie Hall, que comemorava os 25 anos da orquestra de Duke Elling-
ton. Jamal estava no palco junto com Ellington, Charlie Parker, Dizzy Gillespie, Stan Getz e Billie Holiday. Único remanescente desse grupo, ele se diz um afortunado por seguir vivo e traba-lhando. Ahamad Jamal acaba de lançar o álbum Ballades (Jazz Village), o primeiro piano solo de sua carreira.
 
Nascido Frederick Russell Jones, de uma família batista de Pittsburgh, na Pensilvania, ele adotou o nome Ahmad Jamal nos anos 50, quando se converteu ao Islã. Pittsburgh é uma parte importante de sua identidade musical. Ali estão suas raízes e principais influências, tendo convivido com músicos como Earl Hines, Billy Strayhorn, Mary Lou Williams, e Erroll Garner. Aos 14 anos estava em jam sessions com o pianista Art Tatum ou com o saxofonista Ben Webster.

Ahmad Jamal conheceu o sucesso em 1958 quando tocava com seu trio no Chicago's Pershing Hotel. Por aquela época ele definiu seu fraseado minimalista, em contraste com o batucar frenético das teclas, que marcava o jazz da época. Precursor do gênero que ficou conhecido como cool jazz, Jamal foi uma das influências confessas de Miles Davis na definição do estilo. Miles foi um dos muitos músicos que passaram pelo lounge do hotel para escutar o trio de Ahmad Jamal.

Ahmad Jamal at the Pershing: But Not for Me, o álbum gravado ao vivo naquele ano esteve, por mais de dois anos na lista dos dez mais vendidos na época. Feito raro, para um disco de jazz, em qualquer período. Composto basicamente por standards, como But not for me e No greater love, o disco ficou mesmo conhecido pela versão do pianista para o tema latino Ponciana, que acompanhou Ahmad Jamal durante toda sua carreira.

As músicas que compõem o novo álbum Ballades, foram gravadas nos intervalos das sessões de seu disco anterior Marseille(2017). Ahmad Jamal diz que o álbum é uma carta de amor, de inspiração francesa a seu passado. Ele conta que, sempre adorou interpretar baladas. “Elas são difíceis de tocar, tomam, verdadeiramente, anos de minha vida, na tentativa de conseguir uma leitura apropriada para cada uma delas”, explica Jamal.

No repertório do disco Ballades estão três composições suas, entre elas a novíssima Because I Love Youstandards do jazz, como What’s New, consagrado por Billie Holiday; e uma nova leitura de seu clássico Ponciana,  piano solo. A sofisticação e a qualidade de Ahmad Jamal, preservada e ampliada ainda mais, ao longo de seus 89 anos.

No vídeo a seguir temos uma apresentação de Ahmad Jamal no Palais des Congrès de Paris, em 2017, interpretando também uma balada, Autumn Leaves.


segunda-feira, 28 de outubro de 2019

Arthur Maia, o saudoso gigante do baixo



Aos quatro anos o garoto Arthur já batucava nas panelas da casa, acompanhando as músicas que ouvia no rádio. Aos cinco, ganhou sua primeira bateria e começou a ter aulas do instrumento. Com oito anos já tinha uma banda e tocava nas festas e eventos, no Rio de Janeiro. Mas aos 14 anos, influenciado pelo tio Luizão Maia, o jovem Arthur Maia trocou a bateria pelo baixo e se tornou um dos maiores mestres desse instrumento no Brasil.

O baixista Luiz Maia era já uma lenda na cena musical brasileira. Foi ele a primeira influência do jovem Arthur Maia. E foi, também, quem lhe indicou para o primeiro emprego, na banda de Ivan Lins, em 1986.  Com pouco mais de 15 anos, logo Arthurzinho já estava tocando com Luiz Melodia, Marcio Montarroyos, Jorge Benjor, músicos que eram seus ídolos.

Outra influência fundamental para o Arthur Maia foi o baixista Jaco Pastorius, que ele o viu tocando com o Weather Report no Rio, em 1980. De Pastorius, incorporou o baixo elétrico fretless, que não tem trastes no braço. A partir daí desenvolveu sua própria linguagem musical, levando para o baixo elétrico as técnicas adquiridas com o estudo do baixo acústico.  

Arthur Maia, ainda muito jovem, se tornou um baixista dos mais requisitados pelos grandes artistas brasileiros como Djavan, Ney Matogrosso, Gal Costa, Caetano Veloso, Marisa Monte, Roberto Carlos, Dominguinhos entre tantos outros. Tocar com diferentes artistas de todos os gêneros musicais, lhe rendeu uma formação ampla e influências ecléticas. 

Em 1985, Maia passou a integrar o mais importante grupo de jazz brasileiro, o Cama de Gato, junto com Paschoal Meirelles, Mauro Senise e Rique Pantoja. Na mesma época, ele tocava rock, na banda de Lulu Santos; samba, com Martinho da Vila; e MPB no grupo de Ivan Lins.

Em suas composições, Arthur Maia incorpora todas essas influências, fazendo uma fusão do jazz com o samba, o funk e até o reggae. Integrante durante 15 anos da banda de Gilberto Gil, Maia relatava como havia sido marcante ter gravado na Jamaica, o álbum Kaya N'Gan Daya (2002), o tributo de Gil a Bob Marley. 

Em sua carreira solo, Arthur Maia estreou com o álbum Maia, em 1991, que lhe rendeu o Prêmio Sharp Instrumental. Seu último trabalho em disco foi o álbum O Tempo e a Música, editado em 2011, que soa, hoje, como uma espécie de testamento. Nele, se destacam as composições Frevo do Compadre e To Nico. E, também, o arranjo de Maia para o choro Brejeiro, de Ernesto Nazareth, em que o baixo sola, conduzindo a melodia.

Arthur Maia faleceu prematuramente em dezembro de 2018, aos 51 anos. Em julho deste ano o selo Biscoito Fino lançou o DVD Arthur Maia Ao Vivo, gravado em 2015, em Niterói. É deste trabalho o vídeo a seguir, com o tema Arthur e o Gigante, composta para Arthur Maia por Willian Magalhães, da Banda Black Rio. 


Veja, também, Arthur Maia e Dominguinhos nesta sensacional versão de Lamento Sertanejo

O saxofonista Joshua Redman revive Velhos e Novos Sonhos




O quarteto Old and New Dreams foi um grupo de jazz singular, formado no final dos anos 70 por ex-membros da banda do saxofonista Ornette Coleman. Eles recuperaram o antigo formato do revolucionário quarteto de Coleman, com Charlie Haden, no baixo; Ed Blackwell, na bateria; Don Cherry, no trompete; e o saxofonista Dewey Redman, no lugar de Ornette Coleman. O grupo havia ficado órfão, quando Coleman resolveu montar uma nova banda, toda elétrica.

O formato do quarteto sem piano - em que apenas o baixo e a bateria sustentam a sessão rítmica, para os solos do trompete e do saxofone - já é, por si só, inusitado. O mais famoso grupo desse tipo foi o que reuniu Chet Baker e Gerry Mulligan, nos anos 50. Ornette Coleman repetiu essa formação no início dos anos 60, com seu sax alto fazendo contraponto, e se complementando, com o poket trumpet de Don Cherry. Foi o auge do free jazz, o jazz de vanguarda, que levou o improviso a seus extremos.

Com Dewey Redman no saxofone, o Old and New Dreams, ainda que seguindo o estilo de improvisação do free jazz, voltou-se para uma abordagem mais leve que a do grupo de Coleman. O quarteto gravou seu primeiro álbum em 1976, para o selo italiano Black Saint. No repertório, temas do antigo quarteto de Ornette Coleman e novas composições do grupo, como a que dá nome ao disco, escrita por Redman, Old and New Dreams.

O quarteto teve duração relativamente curta, com reuniões esporádicas, uma vez que seus quatro integrantes eram líderes em suas próprias bandas. Eles gravaram apenas quatro discos, no período de 1976 e 1987, todos na Europa e não nos Estados Unidos. 

O quarteto Old And New Dreams com Charlie Haden, no baixo; Don Cherry, no trompete; Ed Blackwell, na bateria;  e Dewey Redman, no saxofone

Em 1979 o selo de jazz alemão ECM lançou outro álbum com o mesmo nome do grupo, Old and New Dreams e em 1980 editou Playing, gravado ao vivo. O último álbum do quarteto foi A Tribute to Blackwell, lançado pelo selo italiano Black Saint, em 1987.

Em 2018, o filho de Dewey Redman, o também saxofonista Joshua Redman, inspirado no lendário grupo de seu pai o formou o quarteto Still Dreaming. Com ele estão o trompetista Ron Miles, seguidor de Don Cherry, até no pocket trumpet; o baixista Scott Colley, que foi aluno de Charlie Haden; e o baterista Brian Blade, influenciado diretamente pela batida de Ed Blackwell.

Joshua Redman não faz um cover da banda de seu pai, ele recria a atmosfera do grupo, na perfeita integração de seus duetos com Ron Miles, como fazia Dewey com Don Cherry. A maioria das músicas que integram o álbum Still Dreaming (Nonesuch -2018) são composições originais de Joshua, como Blues For Charlie, sua homenagem ao baixista Charlie Haden. Do Old and New Dreams, o novo quarteto gravou Playing, composição de Charlie Haden e Comme Il Faut, de Ornette Coleman.

No vídeo a seguir temos a Joshua Redman e o quarteto Still Dreaming com o tema Unanimity, durante a apresentação no Festival Jazz in Marciac, na França, em 2017.