segunda-feira, 8 de julho de 2019

Amoroso, o disco de João Gilberto para uma ilha deserta



O disco Amoroso, que João Gilberto gravou nos Estados Unidos em 1977, é, exageros a parte, um dos melhores álbuns já lançados, em todos os tempos, por qualquer artista. Em Amoroso encontramos João Gilberto no auge de sua maturidade musical, apoiado por uma produção impecável e acompanhado, à perfeição, pelos arranjos de Claus Ogerman. O resultado é um produto extremamente sofisticado, sob uma desconcertante simplicidade aparente.

João Gilberto entrou nos estúdios Rosebud, em Nova York, para três sessões de gravações, em novembro de 1976. O experiente produtor Tommy LiPuma garantiu ao músico as mais perfeitas condições para seu trabalho. LiPuma tinha acabado de ganhar seu primeiro Grammy como produtor, com a faixa This Masquerade, do álbum Breezin' (1976), que ele produziu para o guitarrista George Benson. 

Foi o produtor LiPuma quem sugeriu o maestro alemão Claus Ogerman para escrever os arranjos e conduzir a orquestra nas gravações de Amoroso. No ano anterior, eles já haviam trabalhado em outro álbum emblemático na discografia da música brasileira, o Urubu (1976), de Antonio Carlos Jobim. Como no disco de Jobim, a orquestração de Claus Ogerman nunca é uma coadjuvante secundária. Ela aparece em primeiro plano, em Amoroso, com a bela cama de cordas, realçando o violão personalíssimo de João Gilberto.

O disco surpreende, logo de início, com as três canções “estrangeiras” que João Gilberto trouxe para seu repertório e para sua praia. A primeira delas é ‘S Wonderful, composta pelos irmãos Ira e George Gershwin, em 1927, para o musical Funny Face. A música ganhou um balanço de bossa nova e se tornou, na verdade, um samba cantado em inglês. O arranjo de Claus Ogerman também virou uma referência para as gravações posteriores desse tema.

O mesmo se passou com Estate, uma desconhecida canção do italiano Bruno Martino, que ganhou status de clássico, a partir de sua recriação por João Gilberto. Isso porque, na verdade, João Gilberto nunca foi um simples intérprete, na concepção tradicional do termo. Ele se apropria do tema, que recria, transforma e  devolve com sua própria assinatura. É o que acontece com o bolero Besame Mucho, outra das faixas marcantes do álbum Amoroso.

Na edição em vinil de Amoroso, o lado B é todo de canções do maestro Antonio Carlos Jobim. Lá estão versões definitivas de WaveCaminhos CruzadosTriste; e Zíngaro, que virou Retrato em Branco e Preto, depois de ganhar a belíssima letra de Chico Buarque de Holanda. Mais uma interpretação delicadíssima, em que João Gilberto quase recita a letra acompanhado do violão. É aquele disco para se levar para a ilha deserta, se tiver de ser apenas um.

No vídeo a seguir temos João Gilberto cantando Wave, em Amsterdam, em 1980, com a Dutch Metropole Orchestra executando o arranjo de Claus Ogerman

sábado, 6 de julho de 2019

João Gilberto, um gênio da raça brasileira se vai


Neste sábado, 06 de Julho, nos despedimos de João Gilberto. Mais que o músico, o cantor, o artista, nos deixa uma dessas pessoas que fazem a diferença na cultura, em nosso Mundo. Seu legado não é só a transformação promovida na música popular brasileira, com a criação da bossa nova. Ele inventou uma maneira nova de usar a voz e o violão, que revolucionou a maneira da música ser feita e ouvida. 

R.I.P. João Gilberto



Íntegra do show de 2008, em comemoração ao 50 anos da Bossa Nova, em São Paulo

quinta-feira, 4 de julho de 2019

Moacir Santos, o mestre do afrojazz brasileiro



O grande maestro Moacir Santos é uma personalidade da cultura brasileira que merece sempre todas as nossas reverências.

A trajetória desse músico negro, nascido em Pernambuco, que terminou seus dias como um dos grandes compositores do cinema em Hollywood, é um exemplo de perseverança e determinação. Seu talento venceu as adversidades e o colocou como o mestre dos grandes mestres.

Nascido em 1926, na pequena Flores do Pajeú, Moacir Santos ficou órfão aos dois anos. Foi adotado por uma família branca, que lhe deu acesso a educação escolar e musical. De outra parte, porém, o menino negro sofria maus-tratos por parte de seus pais adotivos. Quando completou quatorze anos, ele não agüentou mais e fugiu de casa. Foi parar em Rio Branco, no Acre. 

Sua formação musical lhe proporcionou ali uma nova família. O professor Paixão, maestro da escola local, adotou o jovem, que além do saxofone, da clarineta e do trompete, ainda tocava o banjo, o violão e o cavaquinho. Quando Paixão mudou-se para Recife, levou Moacir Santos, junto com sua família. 

Jovem rebelde, Moacir acabou desentendendo-se com o padrasto e, mais uma vez, caiu na estrada. Entrou para a trupe de um circo e viajou todo o Nordeste, indo parar na Paraíba. Em João Pessoa foi contratado para comandar a Orquestra da Rádio Tabajara, substituindo Severino Araújo, que se mudava para o Rio. Tudo isso ele viveu, antes de completar dezoito anos de idade. 

Em 1948, com 22 anos, ele deixou o Nordeste para tentar a vida no Rio de Janeiro. Com o talento e a sorte, rapidamente ingressou como saxofonista na Orquestra da Rádio Nacional. Em pouco tempo, foi promovido a arranjador e regente, trabalhando ao lado de Radmés Gnatalli, Leo Perachi e Lírio Panichalli.

Muito aplicado, Moacir Santos foi estudar música clássica e teve como mestres Cláudio Santoro, Guerra Peixe e o maestro alemão Koellreuter. Depois de formado, Santos tornou-se o professor e formou uma nova geração de mestres, como Paulo Moura, Baden Powell, Sergio Mendes e João Donato, para citar alguns.

No início dos anos 60, Moacir Santos compôs algumas das trilhas sonoras do nascente Cinema Novo, como as de Seara Vermelha, Ganga Zumba Os FuzisEm 1967 foi convidado para trabalhar em Hollywood e transferiu-se para Los Angeles, onde viveu, compondo para o cinema, até o fim de seus dias, em 2006, aos 80 anos. 

Moacir Santos não tinha dado nome a suas composições, quando foi gravar seu primeiro disco. Ele as chamava de “coisas”. Inspirado na maneira erudita de catalogação musical, tipo sinfonia 125, Opus 3, número 10, resolveu que elas se chamariam a Coisa n.o 1; ou a Coisa n.o 4Coisa n.o 10 ou Coisa n.o 5 que ficou mais conhecida como Nanã. E assim surgiu seu disco Coisas, de 1965.

No vídeo a seguir, uma rara apresentação do maestro Moacir Santos, regendo a Banda Savana, na TV Educativa de São Paulo, com sua composição Maracatucutê.


Moacir Santos e Banda Savana - Maracatucutê

segunda-feira, 24 de junho de 2019

Kenny Barron e Trio da Paz cantando o jazz do Brasil

Kenny Barron

Trio da Paz

No site do Improviso, na página da Rádio Senado, você pode ouvir e baixar os programas que já foram levados ao ar. Como este que destaca o álbum Canta Brasil, de 2002. 

O disco reúne o pianista americano Kenny Barron com os brasileiros do Trio da Paz. As origens africanas presentes tanto no samba como no jazz são ressaltadas nesse trabalho, editado nos Estados Unidos, que o Improviso apresenta sempre com exclusividade no Brasil. 

O Trio da Paz é formado por grandes músicos brasileiros, que moram nos Estados Unidos e são presenças de destaque na cena jazz internacional. Romero Lubambo toca o violão; Nilson Matta, o baixo; e Duduka da Fonseca, a bateria.

Acesse a íntegra do programa no link abaixo:


O samba encontra o jazz no baixo de Nilson Matta


O instrumentista Nilson Matta, 70 anos, costuma dizer que seu baixo o levou para viajar o mundo. Morando nos Estados Unidos desde os anos 80, Matta é um dos músicos brasileiros mais atuantes na cena jazz internacional. Integrante do Trio da Paz, do Brazilian Trio e líder do grupo Brazilian Voyage, Matta é, ainda, um professor dedicado. Ele dirige o projeto Samba Meets Jazz, comworkshopsvoltados para o ensino dos fundamentos da linguagem do samba em clave de jazz.

Nilson Matta começou a tocar o baixo aos 10 anos de idade. Tornou-se profissional muito cedo, tocando com o irmão baterista em bailes e clubes de São Paulo. Em pouco tempo de carreira já estava tocando na banda de Roberto Carlos. Nos anos 70 fez parte dos grupos que acompanharam João Gilberto, Chico Buarque, João Bosco, Johnny Alf, entre tantos outros grandes artistas brasileiros.

Já morando no Rio de Janeiro, Nilson Matta ingressou no Instituto de Música da UFRJ, onde foi aluno do maestro Sandrino Santoro, o grande mestre do baixo acústico no Brasil. No Rio, no início dos anos 80, Matta participou da primeira formação do mítico quarteto Cama de Gato, uma das referências do jazz brasileiro. Mas logo ele deixou o grupo, para fixar-se em Nova York, nos Estados Unidos, para onde se mudou em 1985.

No lugar certo, na hora certa, Nilson Matta foi apresentado ao saxofonista Gato Barbieri, que estava montando a banda para sua nova turnê. Matta e seu baixo andaram o mundo inteiro tocando com Barbieri durante três anos. A partir dali, os convites não pararam e Nilson Matta pôde estabelecer parcerias importantes com grandes nomes do jazz, como Joe Henderson, Don Pullen, Paquito D'Rivera, Slide Hampton, Herbie Mann, Kenny Barron, entre outros. 

Com os amigos brasileiros, o violonista Romero Lubambo e o baterista Duduka da Fonseca, Nilson Matta criou o Trio da Paz, no fim dos anos 80. O grupo está junto e atuante até hoje. Para celebrar seus 30 anos de existência, eles gravaram o álbum “30”, que foi nominado para o prêmio Grammy em 2017. A composição de Matta, Sampa 67 abre o disco.

Entre seus trabalhos como líder destaca-se o álbum Black Orpheus(2013) em que Nilson Matta revisa o repertório de Orfeu da Conceição, a mítica peça teatral de Vinícius de Moraes e Tom Jobim. E também músicas do filme Orfeu Negro, de Marcel Camus,  com temas como Samba de Orfeu, de Luis Bonfá.

Nilson Matta promove a próxima edição de seu workshop Samba Meets Jazz em Boston, entre os dias 20 e 26 de julho. O programa prevê oficinas de improvisação e harmonia do jazz, ritmos e estilos da música brasileira, arranjos e percussão no samba.

No vídeo a seguir vamos assistir Nilson Matta com Romero Lubambo e Duduka da Fonseca, o Trio da Paz, no tema Baden, composição de Matta em homenagem a Baden Powell.