sábado, 12 de julho de 2014

Kind of Blue: O auge da tumultuada relação de Miles e Coltrane - No Blog do Noblat

Flávio de Mattos
Um soco no estomago marcou o fim do primeiro período do Quinteto de Miles Davis, com o saxofonista John Coltrane. Os dois tinham começado a trabalhar juntos havia pouco mais de um ano.
Davis tinha superado o vício em heroína, e a má fama que lhe trazia. Em plena forma, fez uma soberba apresentação no Festival de Jazz de Newport, em julho de 1955. A performance lhe valeu um contrato com a poderosa Columbia Records.
O trompetista convocou o pianista Red Garland, o baixista Paul Chambers e o baterista Philly Joe Jones, para seu grupo. Davis queria ainda um saxofonista, e Jones indicou John Coltrane. Estava formado o primeiro grande Quinteto de Miles Davis.
Com esse grupo, Miles gravou cinco discos, que ele devia, para selo Prestige, ao mesmo tempo em que preparava o primeiro álbum para o novo selo. Em outubro de 1956, saía o disco do Quinteto Miles Davis para a Columbia Records, ‘Round About Midnight.
Nessa época se deu o incidente da agressão. A banda fazia temporada no Café Bohemia, de Nova York. Coltrane vivia se atrasando para as apresentações e, ainda, chegava doidão, mal vestido, acabado. Às vezes, cochilava no canto do palco em pleno show. Miles Davis, o Chefe, como lhe chamavam os músicos, estava cheio.
Quando aquela noite Coltrane chegou, de novo, atrasado e alto, Miles Davis estourou. Gritando e xingando, foi para cima do músico. Chegou a acertar-lhe o soco no estômago, antes que o pianista Thelonious Monk, que estava no camarim, o contivesse. Coltrane continuava atônito, mal compreendia o que estava passando.
Demitido do Quinteto, John Coltrane se submeteu a um novo tratamento e conseguiu se livrar da heroína. Teve um ano de 1957 altamente produtivo. Fez uma temporada tocando com Thelonious Monk; assinou contrato com a Prestige; e passou a conduzir seu próprio Quarteto, que se tornaria outra referência na história do jazz.
Nesse meio tempo, Coltrane e Miles se acertaram e o saxofonista voltou à banda, em 1958, completamente renovado. Aprendeu muito com Monk, adquirindo completo domínio de seu saxofone.


É essa dupla, no auge da maturidade que vemos no vídeo, de 1959, tocando o temaSo What, faixa que abre o disco Kind of Blue, o álbum de maior êxito na história do jazz. Ele representa uma mudança na maneira de fazer música, resultado da reunião de dois gênios como Miles Davis e John Coltrane. Uma relação tumultuada, de amor e ódio, mas de estímulo mútuo que leva ao crescimento de ambos.

Flavio de Mattos, jornalista, escreverá aqui sobre jazz a cada 15 dias. Dirigiu a Rádio Senado. Produz o programa Improviso - O Jazz do Brasil, que pode ser acessado no endereço: senado.leg.br/radio

terça-feira, 1 de julho de 2014

Forrobodó em Nova York, por Flavio de Mattos em Blog do Noblat

O Quarteto Novo gravou apenas um disco, em 1967, mas deixou uma forte marca na música brasileira. Pela primeira vez os ritmos nordestinos ganhavam um tratamento sofisticado, com riqueza harmônica e sonoridade refinada. Misturando baião e jazz, Theo de Barros, Heraldo do Monte, Airto Moreira e Hermeto Pascoal revolucionaram a cena da música instrumental.
Reunido a princípio para acompanhar o compositor Geraldo Vandré em suas apresentações, o grupo ganhou personalidade própria. Um time com essa escalação não poderia limitar-se a coadjuvante. Exemplo perfeito da musicalidade do conjunto é o tema O ovo, de Hermeto e Vandré.
Cada um dos integrantes alçou vôo próprio depois desse álbum. Hermeto Pascoal se destacou pela experimentação, criando sons a partir de qualquer objeto de que pudesse sacar algum ruído, minimamente organizado. Formou muitos discípulos, instigando a criatividade dos jovens músicos que com ele tocavam.

Forró de dois amigos – Forró in the dark

Um desses seus herdeiros musicais é Jovino Santos Neto, que hoje é professor de piano e composição no Cornish College of the Arts, em Seattle, Estados Unidos. Mas que lá, também, continua fazendo seu forró, misturado com o jazz, seguindo o caminho aberto pelo mestre. Carioca, filho de sergipanos, Jovino recuperou com Hermeto as raízes que trazia no sangue. Delas surgiu em 2008 seu trabalho Alma do Nordeste, lançado no Brasil pelo selo Tratore.
E é também nos Estados Unidos que ressurge a influência de Hermeto na retomada da mistura de ritmos nordestinos com o jazz. De farra, o percussionista Mauro Refosco juntou os amigos brasileiros para fazerem um forró na boate Nublu, do East Village, em Nova York. A banda fez sucesso e passou a se apresentar na casa a cada semana.
Assim nasceu o grupo Forró in the dark, com seu baixo poderoso e sua guitarra, unidos ao pífano, à zabumba e ao triangulo. Seu primeiro cd, Bonfires of São João, em 2006 tem a força de David Byrne, que participa do disco cantando Asa Branca, em inglês.
O som do Forró in the Dark faz sucesso no mundo inteiro. Além de percorrer os Estados Unidos, o grupo já se apresentou na Inglaterra, Itália, Portugal, Turquia e até na Eslováquia. O segundo disco da banda, Light a candle, de 2009, é destaque nas lojas de cds em Paris e toca no rádio lá, especialmente o tema, Lilou.
Aqui no Brasil estamos em clima de festas juninas, mas nos Estados Unidos o baile continua ainda no mês que vem. O Forró in the dark toca no Madison Square Park, de Nova York na tarde do dia 30 de julho. Uma grande festa, sem fogueira nem quentão, mas com muito baião e xote.

Flavio de Mattos, jornalista, escreverá aqui sobre jazz a cada 15 dias. Dirigiu a Rádio Senado. Produz o programa Improviso - O Jazz do Brasil, que pode ser acessado no endereço: senado.leg.br/radio

O trompetista que Conceição me apresentou - Flavio de Mattos em Blog do Noblat


Fuçando um dia a sessão de jazz da Modern Sound, o sempre pranteado templo da música no Rio de Janeiro, encontro um cd de um trompetista que tem em seu repertório o tema Conceição. Perguntei ao vendedor se era a Conceição do Cauby, a que “se subiu, ninguém sabe, ninguém viu”? Era a mesma. O disco se chamava Day Waves, e o músico, Claudio Roditi.
O cd, de 1993, era o primeiro trabalho que Roditi gravava no Brasil, depois de mais de vinte anos vivendo nos Estados Unidos. Ele tinha ido para Boston, em 1970, estudar na Berklee College of Music, e por lá ficou. Depois de formado, mudou-se para Nova York onde ganhou respeito e prestígio na cena jazz americana.
Quando veio gravar Day Waves, Claudio Roditi já tinha em sua bagagem cinco álbuns como líder e muitas participações em outros discos. Tinha sido solista da United Nations Orchestra de Dizzy Gillespie e integrava o grupo liderado pelo saxofonista Paquito D’Rivera.
Incluir Conceição entre temas emblemáticos do jazz, como a própria Day Waves, de Chick Corea, ou All blues, de Miles Davis, e mesmo a fantástica Sue Ann, de Tom Jobim, era bastante ousado. Ela não é uma obra memorável, mas faz parte das lembranças dos tempos da Rádio Nacional. Era um pedido de sua mãe.
Hoje, Roditi é um dos trompetistas top no jazz internacional. Dono de uma linguagem própria, no domínio do trompete e do flughell horn. Ele promove a aproximação do jazz com a cadência da música brasileira. E surpreende o mundo transformando em samba rasgado um standard como In a sentimental mood, de Duke Ellington.


A discografia de Claudio Roditi soma uns vinte álbuns solo editados nos Estados Unidos. Os mais recentes, Brazilianse x 4 (2009), indicado ao Grammy; Simpático(2010) e Bons Amigos (2011), gravados para o selo Resonance, de Los Angeles.
Na frente européia, integra o trio formado com o pianista alemão Klaus Ignatzek e o baixista belga Jean-Louis Rassinfosse. Juntos há mais de vinte anos, eles têm seis CDs gravados para o selo alemão Nagel-Heyer.
No Brasil, a gravadora Biscoito Fino lançou, em 2010, seu único disco editado por aqui em todos esses anos, Impressions. Nele, Roditi revisita clássicos do jazz e mostra algumas de suas composições, como O monstro e a flor, em parceria com o guitarrista Ricardo Silveira.
Conceição me apresentou a esse trompetista, mais conhecido, aqui, entre os músicos do que entre o público. Os shows de Claudio Roditi no Brasil são raros e esporádicos. O próximo está programado para Festival Amazonas de Jazz, em Manaus, dia 26 deste mês. Um privilégio para os aficionados.

Flavio de Mattos, jornalista, escreverá aqui sobre jazz a cada 15 dias. Dirigiu a Rádio Senado. Produz o programa Improviso - O Jazz do Brasil, que pode ser acessado no endereço: senado.leg.br/radio

quinta-feira, 22 de maio de 2014

Os Ipanemas - A volta dos que não foram - Artigo publicado no Blog do Noblat

Os Ipanemas - A volta dos que não foram, por Flávio de Mattos

The Return of The Ipanemas, é o título do cd lançado no ano 2000 pela gravadora inglesa Far Out. O disco traz uma fantástica mistura de samba de raiz afro com jazz. A pergunta é: Quem são esses Ipanemas que estão de volta?
Na década de 60, o percussionista Rubens Bassini; o baixista Luiz Marinho; o violonista Daudeth Azevedo, o Neco; e o baterista Wilson da Neves integravam a orquestra da CBS. O trombonista, arranjador e maestro, Astor Silva era o diretor musical da gravadora. Eles faziam o acompanhamento dos cantores.
Entre uma gravação e outra, sempre tinham um tempo livre no estúdio. E faziam música, enquanto isso. A idéia foi de Rubens Bassini, usar esses intervalos para fazer um disco deles. Astor Silva aprovou e o grupo foi batizado como Os Ipanemas.
Eles puderam usar os melhores recursos da gravadora, a interferência de executivos. Fizeram o disco que eles queriam, com a cara deles.
O álbum foi lançado em 1964 porém, com uma tiragem mínima e nenhuma divulgação. Ficou totalmente esquecido, até o dono da gravadora Far Out, o inglês Joe Davis, dar com o vinil em um sebo do Rio e enlouquecer com a descoberta.


Um quinteto sem piano, assentado no violão, com uma forte presença do trombone e da percussão. A sonoridade dos terreiros, misturada ao samba dos salões de gafieira, com pitadas de jazz. Ouvido ainda hoje, ninguém diz que foi gravado há 50 anos, como se comprova pelo tema Congo (ouça AQUI).
Joe Davis convidou Ivan Conti, percussionista do grupo Azimuth, para produzir um novo disco com o som de Os Ipanemas. Bassini, Marinho e Astor já não estavam vivos. O violonista Neco e o baterista Wilson das Neves eram a memória do grupo.
No ano 2000 saía The Return of The Ipanemas. O trabalho retoma a identidade e a consistência da mistura afro samba jazz do primeiro disco, como se constata no temaBerimbaco (ouça AQUI).
Depois disso, Os Ipanemas já lançaram outros quatro álbuns pela gravadora Far Out:Afro Bossa, em 2003; Samba is our gift, em 2006, Call of the Gods, em 2008 e Que Beleza, em 2010. Este último, já sem o violonista Neco, que morreu em 2009. Agora é Wilson das Neves quem mantém a tradição do grupo.
Em 2008, Os Ipanemas retornados fizeram uma turnê por 10 cidades no Reino Unido e Holanda. No Brasil, se apresentaram somente uma vez, na Fundição Progresso, no final de 2013. O próximo show está programado para o dia 7 de junho, no Rio. Um novo disco será lançado, ainda neste ano.
Torcemos todos para que este seja mais um retorno de Os Ipanemas, desta vez, por por muito tempo e mais constante.

Flavio de Mattos, jornalista, escreverá aqui sobre jazz a cada 15 dias. Dirigiu a Rádio Senado. Produz o programa Improviso - O Jazz do Brasil, que pode ser acessado no endereço: senado.leg.br/radio

terça-feira, 20 de maio de 2014

As gravações (quase) perdidas de Sinatra & Jobim, por Flávio de Mattos - Blog do Noblat

Enviado por Flávio de Mattos - 
8.5.2014
 | 10h30m
MÚSICA

As gravações (quase) perdidas de Sinatra & Jobim, por Flávio de Mattos

Em uma tarde de 1966, Tom Jobim estava sentado no Veloso, o famoso bar que hoje se chama Garota de Ipanema, quando o garçom lhe chama do balcão e avisa: “Seu Tom, telefone para o senhor. É o Frank Sinatra”.
Tom Jobim hesitou em ir atender, pensou que era trote, de algum de seus amigos gaiatos. Contudo, quando chegou lá, para sua surpresa, do outro lado da linha, a voz inconfundível de Sinatra, com o convite: “Quer gravar um disco comigo?”
Assim nasceu o álbum Francis Albert Sinatra & Antonio Carlos Jobim.
O disco foi gravado em três sessões, com mais de dez horas cada uma, nos dias 30, 31 de janeiro e primeiro de fevereiro, de 1967. Os temas foram escolhidos por Sinatra, entre as canções de Jobim, que ele já conhecia. Os arranjos e a orquestra foram conduzidos pelo maestro alemão Claus Ogerman.
Sinatra e Tom tornam-se grandes amigos. Cantaram juntos na televisão americana, enquanto Garota de Ipanema, que abria o disco, se consagrava como um hit mundial.
Dois anos depois, em 1969, Frank Sinatra convida Tom Jobim para gravar um novo disco. Os arranjos ficaram a cargo de Eumir Deodato, o então jovem maestro brasileiro, com apenas 26 anos. O álbum, no entanto, nunca foi lançado. Sinatra não ficou nada satisfeito com seu resultado final.


Três das peças do repertório, ele dizia que não tinham “a cara de Frank Sinatra”. EramSabiáDesafinado; e Bonita. Sinatra desenvolveu especial implicância com Desafinado, por causa da letra em inglês, achava esquisito dois homens cantando juntos uma canção de amor.
O disco se chamaria SinatraJobim. Na capa, Frank Sinatra aparecia encostado em um ônibus da Greyhound, no meio da “floresta amazônica”. Surreal demais para seu gosto, a floresta fake foi a gota d’água e o projeto foi cancelado.
Algumas das gravações feitas para esse álbum foram parar em um disco obscuro chamado Sinatra and Company, editado em 1971. No lado A do vinil, a música de Tom Jobim, no lado B, arranjos de Don Costa para músicas de elevador, todas, merecidamente, esquecidas.
O disco foi distribuído sem nenhum lançamento. Uma pena porque as interpretações de Sinatra e Jobim para Água de beberWave Estrada Branca, são maravilhosas. Se tivesse sido bem divulgada em seu momento, a versão de Sinatra para Wave talvez se tivesse tornado uma referência definitiva para o belíssimo tema de Tom Jobim.
Somente em 2010, as três canções vetadas anteriormente por Frank Sinatra foram publicadas em cd. Naquele ano, o selo Concorde lançou Sinatra Jobim - The Complete Reprise Recordings.
Com a edição remasterizada das gravações, vemos que o veto de Sinatra foi resultado de um excesso de zelo. Basta ouvir sua interpretação para Bonita, simplesmente, linda. Agora, aquela capa, era, realmente, espantosa.


Flavio de Mattos, jornalista, escreverá aqui sobre jazz a cada 15 dias. Dirigiu a Rádio Senado. Produz o programa Improviso - O Jazz do Brasil, que pode ser acessado no endereço: senado.leg.br/radio